A campanha completa mais de dez anos no Brasil e convida toda a sociedade a falar sobre saúde mental com mais abertura.
O que precisamos entender sobre prevenção ao suicídio?
Nem sempre é fácil perceber quando alguém está em sofrimento. O comportamento de quem pensa em suicídio raramente segue os padrões que aprendemos a reconhecer, e é justamente esse descompasso entre o que imaginamos e o que acontece de fato que torna o tema tão desafiador de abordar.
No Brasil, o setembro amarelo nasceu em 2015 por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Centro de Valorização da Vida (CVV). A data-base é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, marcado em 10 de setembro pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com a OMS, mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio ao ano no mundo, dado que posiciona essa como uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos.
No Brasil, os números também preocupam. Segundo o Ministério da Saúde, o país registra cerca de 14 mil mortes por suicídio por ano, além de uma subnotificação histórica que dificulta a dimensão real do problema. O que se sabe com clareza é que a maioria dos casos estava associada a condições tratáveis, como depressão, ansiedade e transtornos de humor, que, quando identificadas e acompanhadas adequadamente, respondem bem à intervenção clínica. A OMS estima ainda que, para cada morte registrada, há cerca de vinte tentativas, o que reforça a urgência de uma abordagem preventiva sistemática, e não apenas reativa.
Quais são os sinais de alerta?
Alguns comportamentos merecem atenção especial, mesmo quando aparecem de forma sutil: falar em morte ou em “não querer mais estar aqui”, afastar-se de pessoas próximas sem explicação aparente, demonstrar sensação intensa de falta de perspectiva, distribuir objetos pessoais de valor, ou apresentar uma calma repentina após um período de crise intensa. Essa última mudança, que pode ser confundida com melhora, muitas vezes indica que a pessoa já tomou uma decisão. A ausência de choro ou de agitação não significa ausência de sofrimento. Reconhecer esses sinais, mesmo os mais discretos, pode ser o que abre a janela para uma conversa que faz diferença.
Fatores de risco conhecidos incluem tentativas anteriores de suicídio, histórico familiar, acesso a meios letais, isolamento social, abuso de álcool ou outras substâncias, e vivência de traumas recentes como perdas, violência ou desemprego. Nenhum desses fatores, isolado, é determinante, mas sua combinação exige atenção clínica e social redobrada.
A prevenção começa na conversa, mas não termina nela.
A cor amarela da campanha carrega uma simbologia direta: ela remete à luz, à vida e à esperança. Mas o setembro amarelo não é apenas sobre cor. É sobre criar condições para que as pessoas falem. Perguntar a alguém se está pensando em suicídio não aumenta o risco. Pelo contrário, pesquisas mostram que verbalizar a questão costuma aliviar a tensão de quem está em crise, abrindo espaço para que busque ajuda.
Além da escuta ativa, é importante que quem identifica um sinal de alerta saiba para onde encaminhar. Profissionais de saúde têm papel central nesse processo: médicos de família, clínicos gerais, pediatras e enfermeiros são frequentemente os primeiros pontos de contato de pessoas em sofrimento, e seu treinamento para a identificação e o manejo do risco é parte fundamental da prevenção. O CFM disponibiliza materiais técnicos e protocolos clínicos de avaliação de risco para profissionais de saúde. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), distribuídos em todo o território nacional, são referência especializada no acompanhamento de pessoas em sofrimento psíquico grave, inclusive com risco de suicídio.
O CVV (Centro de Valorização da Vida) funciona 24 horas, todos os dias, pelo telefone 188, serviço gratuito, sigiloso e disponível em todo o território nacional. O atendimento pode ser feito também por chat no site cvv.org.br.
Cuidar de quem fica também é prevenção.
Um aspecto menos discutido, mas igualmente importante, é a posvenção: o cuidado dirigido às pessoas que perderam alguém para o suicídio. Esse grupo apresenta risco aumentado de desenvolver luto complicado e, em alguns casos, ideação suicida própria. Oferecer escuta qualificada, acesso a acompanhamento psicológico e informação sobre grupos de apoio é uma extensão natural do trabalho de prevenção e deve ser incorporada à prática clínica e às redes de suporte comunitário.
Falar sobre suicídio com responsabilidade é um ato de cuidado, com quem está ao redor e com a própria saúde mental. Se este artigo trouxe alguma reflexão, vale compartilhá-lo com alguém que também precise dessa conversa.
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