Ele senta na sala de espera com os olhos ainda ardendo do colírio e pergunta, baixinho, se alguém pode ligar para o filho vir buscar. Não é frescura. Fez o exame de rotina, aquele que dilata a pupila para o médico enxergar o fundo do olho, e agora ele mesmo enxerga pouco. As luzes do consultório parecem mais fortes do que pareciam uma hora atrás. Lá fora, ele sabe, o sol vai doer assim que abrir a porta.
Em quase nenhuma outra especialidade médica o próprio exame deixa o paciente temporariamente incapaz de voltar sozinho para casa. Em oftalmologia, isso é rotina. E é uma rotina que a agenda do consultório raramente trata como o que ela é: uma variável logística, não um detalhe de bastidor.
Quatro a seis horas sem ver direito, e ninguém programou isso.
A dilatação pupilar usa colírios midriáticos, geralmente à base de tropicamida, para abrir a pupila e permitir que o oftalmologista examine a retina com precisão. O protocolo de dilatação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Unesp, descreve o procedimento como parte padrão da avaliação em ambulatórios de retina: gotas aplicadas em intervalos curtos, antes mesmo de o paciente entrar na sala de consulta.
O efeito não passa rápido. Serviços de diagnóstico oftalmológico recomendam, de forma quase unânime, que o paciente evite dirigir depois do exame, porque a visão permanece embaçada por horas. Não é uma tontura passageira. É o olho temporariamente incapaz de controlar quanto de luz entra, o que compromete o julgamento de distância e a nitidez justamente nas tarefas que dirigir exige.
Isso muda a lógica de uma agenda. Um horário de consulta que dilata pupila não é só um espaço de trinta minutos entre dois pacientes. É um espaço que carrega, embutida, a pergunta “quem leva essa pessoa para casa?”, e essa pergunta, na maioria dos consultórios, só aparece na hora, quando já é tarde para resolver com calma. Confirmar com antecedência se o paciente virá acompanhado, ou avisar sobre a possível necessidade de transporte, é decisão de agenda tomada dias antes, não de recepção decidida em pé.
A doença que nunca dói o suficiente para preocupar.
Se a dilatação é o efeito mais visível de uma consulta oftalmológica, o glaucoma é o oposto: o problema que quase não avisa. É considerado a maior causa de cegueira irreversível do mundo, segundo o Conselho Federal de Medicina, e no Brasil o cenário confirma isso: cerca de 350 mil brasileiros seguem tratamento contínuo com colírios distribuídos pelo SUS, de acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Em 2022, o país tinha aproximadamente 1,5 milhão de pessoas com a doença, e quase metade desse grupo não sabia disso, porque o glaucoma evolui de forma silenciosa, sem dor nem incômodo perceptível na fase inicial.
No mundo, a Organização Mundial da Saúde estima 80 milhões de pessoas com glaucoma, das quais 5% chegam à cegueira total. O dado que costuma escapar da conversa é outro: a doença não some depois do diagnóstico. Ela exige colírio diário e retorno periódico ao consultório, indefinidamente, e a adesão a essa rotina é reconhecida como o ponto mais frágil do tratamento. Dificuldade de organização, baixa escolaridade e acesso limitado ao especialista aumentam o risco de abandono, o que permite que a doença avance sem que ninguém perceba.
Os próprios números de exames mostram o tamanho da distância entre regiões. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia registrou um salto de 1,37 milhão de exames de glaucoma em 2019 para 2,26 milhões em 2025, alta de 65%. Mas o crescimento não foi parecido em todo lugar: o Sudeste avançou 115%, o Nordeste, 36%. Em número de exames a cada 100 mil habitantes, Pernambuco chega a 7 mil, o Distrito Federal, a 265.
Uma doença que não dói só continua sendo tratada se alguém, de fora do paciente, mantiver o fio da rotina puxado. Ligar para confirmar o retorno de um paciente de glaucoma não é gentileza opcional. É a diferença entre um tratamento que continua funcionando e um que silenciosamente para de funcionar, sem que ninguém do lado do paciente perceba a tempo.
Uma atenção que existe antes da palavra medicina.
O cuidado minucioso com os olhos não é invenção recente. Um dos primeiros registros detalhados de doenças oculares do mundo está no Sushruta Samhita, tratado escrito na Índia por volta do século VI ou V antes de Cristo. O texto sistematiza dezenas de enfermidades oculares e descreve o que se considera a primeira cirurgia de catarata já documentada, feita com um instrumento pontiagudo para deslocar o cristalino opaco e devolver parte da visão ao paciente.
O que chama atenção não é só a antiguidade. É a minúcia. Sushruta organizou sintomas, prognósticos e condutas para o olho séculos antes de existir qualquer noção do que hoje chamamos de especialidade médica. Cuidar de olho sempre exigiu esse tipo de atenção deliberada, porque o órgão não perdoa pressa nem descuido, e o erro ali costuma ser definitivo.
Essa linhagem de cuidado chegou até um Brasil com 16.784 oftalmologistas registrados no Conselho Federal de Medicina, segundo a Demografia Médica 2025, o equivalente a 7,90 especialistas para cada 100 mil habitantes. Um número relevante, mas que também revela concentração: nem todo consultório de olhos no país tem, ao seu redor, a mesma facilidade de acesso que um grande centro urbano oferece. A distância que Sushruta cobria com paciência milenar, o consultório de hoje precisa cobrir com gestão.
O que muda quando a lógica da agenda acompanha a lógica do olho.
Dilatação que compromete a visão por horas. Doença que avança sem avisar. Uma tradição de cuidado que remonta a milênios antes da medicina como se conhece hoje. Nenhum desses três fatos é novidade isolada, mas juntos formam um argumento simples: a agenda de um consultório oftalmológico carrega responsabilidades que a agenda de outras especialidades não carrega da mesma forma.
Isso não é motivo para tratar o consultório como um caso à parte, isolado do resto da equipe. É o contrário. Quanto mais a organização da agenda reconhece essas particularidades, mais ela reforça o que já funciona no consultório, somando previsibilidade a um cuidado que, pela própria natureza do olho, não tem margem para o “depois a gente resolve”.
Fontes e referências:
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Dados sobre crescimento e distribuição regional dos exames de glaucoma no Brasil (2019-2025), divulgados via Agência Einstein/Tribuna de Minas, maio de 2026.
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Dados sobre tratamento de glaucoma pelo SUS e adesão ao tratamento, via Correio Braziliense.
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Nota sobre o Dia Nacional de Combate ao Glaucoma: estimativas da Organização Mundial da Saúde e dados nacionais de 2022.
- Demografia Médica 2025 (CFM), citada por Afya Educação Médica. Número de oftalmologistas registrados no Brasil.
- Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp). Protocolo de Dilatação Pupilar, POP OFTALMO 001, 2023.
- Página/12 (Enrique Garabetyan). Reportagem sobre a história da oftalmologia e o Sushruta Samhita.
- EyeNews UK. Artigo sobre Sushruta e as origens da cirurgia de catarata na Índia antiga.
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