Uma reflexão sobre história, mercado e futuro.
Há décadas, basta dizer “secretária” em uma reunião corporativa para que a mente de quase todo mundo projete a mesma imagem: uma mulher, atenta, resolvendo a agenda de alguém. A palavra carrega um peso histórico imenso e, ao mesmo tempo, uma imprecisão cada vez maior.
Essa associação não nasceu do acaso nem do capricho. É o resultado de um processo histórico, econômico e social que atravessou o século XX com força de narrativa. O problema é que o mercado mudou, e a narrativa ainda não acompanhou o ritmo.
À medida que o trabalho administrativo migra para o ambiente digital, surgem modalidades como o secretariado remoto e o BPO (Terceirização de Processos de Negócio), e as demandas da função tornam-se cada vez mais estratégicas, uma pergunta se impõe: o secretariado é uma carreira definida pelo gênero de quem a exerce ou pela complexidade das competências de quem a executa?
Para responder com honestidade, é preciso começar pelo começo.
Uma profissão milenar e originalmente masculina.
O imaginário popular conecta o secretariado aos escritórios modernos do século XX, mas suas raízes são muito mais antigas. Na Mesopotâmia, no Egito Antigo e na Roma Imperial, o escriba, ou secretarius, termo derivado do latim secretum, relativo à guarda de assuntos confidenciais, era uma figura de prestígio, ligada ao poder e à alta administração pública. Durante milênios, esses profissionais foram exclusivamente homens de confiança de reis, sacerdotes e governantes.
Na Idade Média e durante a Revolução Industrial, o perfil se manteve: secretários atuavam como homens de negócios, guarda-livros e conselheiros administrativos. A entrada das mulheres nesse universo não foi uma consequência natural: foi uma ruptura provocada por forças externas à profissão.
A grande transição: como o secretariado tornou-se predominantemente feminino.
A virada começa a ganhar contorno no final do século XIX. A chegada da máquina de escrever foi decisiva: criou um novo posto de trabalho nos escritórios em expansão e, por ser considerado menos “pesado” que o trabalho fabril, abriu espaço para a contratação de mulheres, que em geral aceitavam salários mais baixos. É o que registros históricos da época e pesquisas sobre feminização de ocupações documentam com consistência.
O segundo impulso veio das duas Guerras Mundiais. Com a convocação em massa dos homens para os fronts, as mulheres assumiram postos vitais na retaguarda administrativa das empresas e dos governos. No Brasil, essa transição se consolidou a partir dos anos 1950.
Ao longo das décadas seguintes, o movimento se formalizou. Em 1985, a Lei nº 7.377 regulamentou o secretariado no Brasil. Três anos depois, em 1988, foi criada a FENASSEC (Federação Nacional das Secretárias e Secretários), e em 1989 entrou em vigor o Código de Ética da categoria.
Esse legado importa: o profissionalismo de gerações de mulheres ergueu a base da gestão administrativa moderna. Ignorá-lo seria uma injustiça histórica.
O que as mulheres construíram e o que isso custou.
Reconhecer que o secretariado foi feminizado é diferente de reconhecer o que as mulheres fizeram com essa profissão. São coisas distintas, e a segunda merece mais atenção do que costuma receber.
Quando o secretariado passou para as mãos das mulheres no século XX, ele não era uma profissão estruturada. Não havia regulamentação, não havia código de ética, não havia formação superior sistematizada. Era uma ocupação que existia por necessidade, mas não tinha nome, não tinha carreira, não tinha futuro definido.
Foram as secretárias, e não o mercado, não os empregadores, que transformaram esse espaço. Foram elas que formaram as primeiras associações de classe, nos anos 1960, começando pelo “Clube das Secretárias” no Rio de Janeiro. Foram elas que pressionaram por regulamentação, que conquistaram a Lei 7.377 em 1985, que criaram a FENASSEC em 1988 e que aprovaram o Código de Ética em 1989. Em menos de três décadas, transformaram uma ocupação informal em uma profissão reconhecida.
E fizeram isso enquanto lidavam com algo que o mercado raramente coloca na conta: a dupla jornada. As mesmas mulheres que organizavam a agenda de consultórios e gerenciavam fluxos administrativos encerravam o expediente e voltavam para casa, onde havia outra agenda a administrar, outro fluxo a gerir. A eficiência que tornaram marca da profissão foi, em grande parte, desenvolvida sob pressão dobrada.
“Não foi o mercado que profissionalizou o secretariado. Foram as mulheres que profissionalizaram o mercado.”
A profissional de hoje: experiência como patrimônio.
O debate sobre o futuro do secretariado costuma olhar para frente: inteligência artificial, automação, trabalho remoto, novas ferramentas. Raramente olha para quem está, agora, sustentando a profissão no dia a dia.
A profissional de secretariado com 40, 50 ou 60 anos não é uma figura do passado. É, em muitos casos, a coluna vertebral dos fluxos administrativos de clínicas, consultórios e empresas. Ela aprendeu a datilografar, depois aprendeu a digitar, depois aprendeu a usar sistemas de gestão, depois migrou para ferramentas em nuvem. A cada nova rodada tecnológica, ela se adaptou, não porque fosse exigido formalmente, mas porque era necessário para continuar entregando resultado.
Segundo a Pesquisa Diversity Matters Brazil 2024, da McKinsey & Company, 47% das profissionais acima de 40 anos no Brasil já relataram sofrer discriminação etária em processos seletivos ou promoções. É um dado que revela uma contradição do mercado: ao mesmo tempo em que a experiência é cada vez mais valorizada no discurso das organizações, na prática ela ainda é tratada como obstáculo quando está acima de uma certa faixa etária, sobretudo para mulheres.
No secretariado, essa contradição tem um sabor particular. Uma profissional com 25 anos de carreira não carrega apenas habilidade técnica. Ela carrega memória institucional, capacidade de leitura de contexto, inteligência relacional cultivada em anos de contato com pacientes, médicos, gestores e equipes. Esse tipo de patrimônio não se replica em um curso de seis meses.
Mais do que reconhecer isso como dado, é importante nomear: a profissional mais experiente não é um custo de transição tecnológica. Ela é uma vantagem competitiva, especialmente em ambientes como a saúde, onde a confiança entre profissional e paciente não se constrói com algoritmos.
O divisor de águas: a revolução das competências.
Nas últimas décadas, a transformação digital deslocou o eixo da profissão. A difusão de softwares integrados, prontuários eletrônicos, sistemas de agendamento automatizado e ferramentas de comunicação assíncrona esvaziou a necessidade do “registro manual” como função central. O que sobrou e ganhou valor foi o que a tecnologia ainda não sabe fazer bem: julgamento, relação humana, gestão de contexto.
O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, indica que habilidades como pensamento analítico, inteligência emocional, resolução de problemas complexos e comunicação adaptativa seguem entre as mais demandadas pelas organizações, e nenhuma delas tem relação com gênero. São competências desenvolvidas por treinamento, prática e experiência.
O secretariado deixou de ser uma função de apoio passivo para se tornar uma engrenagem ativa na eficiência operacional de clínicas, consultórios e empresas.
O secretariado remoto e a descentralização do perfil.
O crescimento do trabalho remoto acelerou ainda mais esse movimento. Quando o atendimento se torna digital e assíncrono, pautado por SLA (nível de serviço acordado) e métricas objetivas de desempenho, a localização geográfica e as características pessoais do profissional perdem relevância. O que o mercado passa a mensurar com rigor é:
- Capacidade analítica na gestão de fluxos de trabalho.
- Proficiência tecnológica nas ferramentas digitais de comunicação e agendamento.
- Inteligência relacional no acolhimento ao cliente e ao paciente.
- Postura ética e discrição no tratamento de dados sensíveis.
Organização, empatia, foco em detalhes e diplomacia não pertencem a nenhum cromossomo. São competências profissionais: adquiridas, treinadas, aprimoradas.
O desafio dos estereótipos residuais.
A evolução do mercado não apaga os estereótipos de uma hora para outra. A sociedade ainda tende a associar a figura de suporte administrativo à imagem feminina, e homens que escolhem a área por vezes enfrentam estranhamento inicial. Esse ruído existe, e seria ingênuo negá-lo.
A tendência, no entanto, aponta em outra direção. O avanço de agendas de ESG (Ambiental, Social e Governança) e a cultura de alto desempenho pressionam as organizações a priorizar entrega de resultados e qualidade do serviço, independentemente de marcadores sociais. Não por idealismo, mas por eficiência.
A pergunta que o futuro nos faz.
Reconhecer o papel decisivo das mulheres na construção e valorização do secretariado moderno é uma questão de justiça histórica. Elas profissionalizaram uma área que existia, mas não tinha nome, código de ética nem federação.
Mas há uma distinção importante entre homenagear o passado e compreendê-lo. O que as mulheres fizeram com o secretariado ao longo do século XX não foi apenas “ocupar um espaço que os homens deixaram vago”. Foi construir, de dentro para fora, uma profissão com identidade, com ética, com futuro. Isso é diferente e exige ser dito com essa clareza.
Ao mesmo tempo, olhar para o futuro do trabalho pela lente do gênero é um anacronismo que a própria profissão já superou. Em um ecossistema que exige resolutividade, humanização dos canais digitais e visão de processos, a pergunta central não é mais se o secretariado é feminino ou masculino.
A pergunta é outra, e muito mais interessante: o profissional está preparado para entregar organização, inteligência relacional e valor estratégico na gestão do tempo e no cuidado com o cliente?
Para quem chegou até aqui carregando décadas de prática, de adaptação e de entrega, essa resposta já está no currículo. Está na memória dos pacientes que foram bem atendidos, nas agendas que nunca falharam, nas crises que foram resolvidas antes de virarem problema.
A história explica como chegamos até aqui. O futuro pertence à competência. E a competência, muitas vezes, já tem um rosto.
Fontes e referências:
- Organização Internacional do Trabalho (OIT). Global Employment Trends for Women: relatórios sobre igualdade de gênero e evolução das ocupações no mercado de trabalho global.
- World Economic Forum (WEF). The Future of Jobs Report 2025. Pesquisa sobre competências profissionais emergentes, automação e transformação do trabalho.
- McKinsey & Company. Diversity Matters Brazil 2024. Pesquisa sobre diversidade, equidade e inclusão no mercado de trabalho brasileiro.
- Goldin, Claudia. Understanding the Gender Gap: An Economic History of American Women. Oxford University Press. (Nobel de Economia 2023.)
- FENASSEC (Federação Nacional das Secretárias e Secretários). Histórico e regulamentação da profissão no Brasil. Lei nº 7.377/1985 e Lei nº 9.261/1996.
- IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD): estatísticas de gênero e mercado de trabalho.
- Cetic.br / NIC.br. Pesquisa TIC Saúde: adoção de tecnologias da informação e comunicação nos estabelecimentos de saúde brasileiros.
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